Menezes y Morais

– Realizada no dia 09.09.08, na casa do autor no condomínio verde, no Jardim Botânico, às 20h.

Nome completo: José Menezes de Morais

Nascimento: 29 de julho de 1951, em Altos (PI)

Em Brasília desde: 1980

Bibliografia:

– Laranja partida ao meio, 1975

O suicídio da mãe terra, 1980

Pássaros da terra com paisagem humana, 1882

Diário da terra & cenas da cidade sitiada, 1984

1964 – poemas do sufoco, 1986

A balada do ser e do tempo, 1987

O livro das canções de amor & outros cantares de igual teor, 1990

O rock da massa falida, 1992

Na micropiscina da lágrima feliz, 1999

Por favor, dirija-se a outro guichê, 2001

 

– Breve perfil (retirado do Dicionário de Escritores de Brasília, de Napoleão Valadares)

Diplomado em História. Veio para Brasília em 1980. Jornalista, professor, repórter. Colaborou em periódicos. Filiado ao Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (presidente). Partic. de várias antologias, entre as quais Poetas brasileiros, vol. 1; Poemas, 1990, SEDF; Antologia da nova poesia brasileira, 1992, org. de Olga Savary; Ibirapitanga, 1994, SEDF; A poesia piauiense no Século XX, org. de Assis Brasil.

 

PERGUNTAS
1. Fale um pouco da sua obra e, principalmente, da sua poesia.
Os meus poemas e tudo o que escrevo questiona a condição humana. Sou um poeta das idéias. Dos meus 10 livros publicados, oito são de poesia, um de contos e um de teatro. Dos outros 11 que estão guardados, nove são de poesia também. Então eu, como poeta, dependo muito do poema. Pode ser de amor, de protesto, de noticia ruim que provoca um sentimento e faz aquilo ir pro papel. Não é um entretenimento pelo entretenimento. Eu tento levar o leitor para uma coisa maior, a questão do relacionar-se nesse mundo.

2. Como se tornou jornalista e escritor?
Quando eu estava no 4º ano do primário, eu escrevi um poema, aos 10 anos, sem saber o que era poema. Coloquei letra em uma melodia. Então desde que me entendo como gente, sou poeta. Eu nasci na cidade de Altos, no Piauí, em 1951. Eu com meus 15, 16 anos já era conhecido como um formador de opinião em Teresina e fui chamado para ser editor de cultura de um jornal da cidade antes de ter 18 anos. Já entrei no jornalismo por cima, em cargo de editor. Fiquei dois anos lá e gostei tanto do jornalismo que resolvi ir para o Rio de Janeiro estudar. Fiquei lá por cinco anos. No dia 2 de maio de 1980, vim pra Brasília passar férias e aqui fiquei. Até hoje.

3. No que você acha que o jornalismo melhora a literatura?
O jornalismo melhorou a minha literatura porque me colocou em contato direto com a realidade. Então aprimorou minha formação humanística. Claro que conciliar o jornalismo com a literatura não foi tarefa fácil, porque, na verdade, qualquer profissão suga muito o escritor e atrasa o processo literário do indivíduo. O jornalista atrapalha a literatura pelo tempo físico, porque livro é coisa para mais de um ano. Mas ajuda pelo exercício diário de redação. De qualquer forma, eu amo o jornalismo, porque é ele que paga as minhas contas. Ser escritor, ser poeta, é a satisfação da minha existência.

4. Você acha que dá para conciliar jornalismo e literatura?
A experiência histórica mostra que sim, dá para conciliar, porque tem muito jornalista escritor no Brasil. Quando não concilia, é porque uma vocação bate mais forte que a outra. A própria a Rachel de Queiroz, que era jornalista e escritora, dizia que não dava para viver só com uma coisa ou só com outra. No meu caso, a literatura alimenta minha existência. O jornalismo garante a minha sobrevivência.

5. Você mora nesse condomínio isolado, longe do Plano Piloto, verde, sem barulho nenhum. Não se sente sozinho nesse sobrado vazio, cheio de livros e com pouca mobília? Ou o silêncio te ajuda a escrever?
Não é o silêncio que faz o escritor, mas essa paz aqui ajuda. O barulho desconcentra. Assim que eu me formei em Jornalismo, recebi uma proposta de emprego pra Veja de São Paulo. Uma semana na cidade foi o suficiente para eu chorar com o dióxido de carbono da capital. Não agüentei. Nessa casa, isolado, que moro desde 2000, eu produzi mais do que na minha antiga, na 116 norte. Foram duas peças de teatro, um romance e vários livros de poesia. Maximizei meu processo literário.

6. Como avalia a literatura brasiliense hoje?
Brasília tem muita gente na literatura. Acho que na verdade tem muita poesia, pouco poeta, porque a maioria dos escritores faz prosa. Mas uma parte dos que estão no cenário literário brasiliense veio do coletivo de poetas, movimento de 1990, época que eu era presidente do Sindicato dos Escritores. O Coletivo continua realizando saraus em Brasília e isso é muito bom, porque mantém forte a literatura da cidade. A cidade tem os poetas dessa época, os que chegaram depois. Tem muita gente boa produzindo no DF e no Brasil. O que falta é editora, que acha que poesia vende pouco. Drummond mesmo, que era Drummond, vendeu só três mil exemplares.

7. Mas por que você acha que a indústria cultural marginaliza tanto a poesia?
A tiragem é pequena nesse ramo. Quem gosta de poesia é diferenciado, tem opinião melhor. Ao longo da história, os poetas sempre incomodaram. Resumem uma tomada de consciência. Os poetas sempre se posicionaram contra as injustiças. Foi assim no nazismo, nas ditaduras, no capitalismo desumano. Mas a poesia não pode ser só panfletária. Também tem que cuidar da qualidade estética. E grandes poetas conseguiram conciliar forma e conteúdo – há uma fome de estrelas e proteínas no ramo.

8. E, sem as editoras, como você faz pra fazer com que sua poesia chegue ao público?
Ah, 90% dos poetas tem produção independente. Só uns 10% tem editora, e porque ralaram muito para conseguir. Tem é que sair vendendo de mão em mão, recitar para o público, mostrar seu trabalho de um em um, colocá-lo na internet. Hoje sou professor de História em escolas de ensino médio, o que ajuda muito com o dinheiro que a poesia não traz.

9. Você acha que já ser conhecido na mídia como jornalista facilita a divulgação da sua obra literária?
Facilita, com certeza. Mas o nome que eu assino no jornalismo (José Menezes de Morais) é diferente do que eu uso na poesia (Menezes y Morais). Eu quis isso para não misturar as duas coisas. E o nome poético é algo mais amplo que o jornalístico. Além de que o meu “de Morais” sempre fez com que as pessoas achassem que eu era parente do Vinicius – aqui no Brasil e no exterior também. No Paraguai, por exemplo, quando fui acompanhar o José Sarney numa viagem em 1986, o guarda me perguntou se eu era filho do poeta. Com o y, não tem essa confusão.

10. Como é seu processo de criação literária?
Quando escrevo, é como se eu estivesse sozinho. Minha literatura é um ato de gestação, vai saindo devagarinho. E depois que sai, a melhor sensação é a de lamber a cria. Me sinto mais gente quando produzo literatura ou jornalismo. Me isolo, tiro o momento pra mim, deixo, volto para ver como está. Depois que escrevo de primeira, dou um certo distanciamento do texto, depois volto. Quando eu chego a colocar uma poesia no papel, é porque já estava com ela há tempos, aquela coisa me aprisionando. Tanto é que eu mastigo o meu texto que uma vez, quando tinha 20 anos, perdi meu caderno de poemas. 80% deles eu consegui recuperar, porque os tinha de memória.

11. Qual a principal diferença que você vê entre jornalismo e literatura?
A literatura tem mais liberdade, pode traduzir a realidade. Mas o jornalismo tem que traduzir a realidade, senão… o historiador também traduz, mas com mais rigidez.

12. Que conselhos você daria para um jovem jornalista que pretende ser escritor?
Viver, viver e viver. E nisso está incluído ler muito. A pessoa tem que viver, porque inspiração não vem da experiência dos outros. Para escrever sobre a condição humana, é preciso viver a condição humana. E a gente aprende um pouco com cada pessoa que conhece.

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